O óbvio nem tão óbvio assim

Hoje em dia, quando conto pra alguém sobre o universo da publicidade e do marketing e o quão legal isso é, quase não consigo controlar a empolgação. Acontece que perceber as coisas mais óbvias que muita gente não percebe é divertido demais! Não sei como é, mas imagino que sempre que vou falar da minha quase profissão meus olhos devem brilhar como olhos de desenho japonês. Resolvi fazer um post então pra falar de algumas “curiosidades” que você, mero mortal, só percebe depois que a gente conta, mas que o tempo todo está a um palmo da sua cara.

Antes de começar, porém, é preciso que vocês entendam a diferença entre Publicidade/Propaganda e Marketing, porque a minha lista vai ser mista, com estratégias de ambas as áreas. Lembrando que para alguns autores, publicidade é diferente de propaganda. Aqui no Brasil tudo acabou sendo uma coisa só, porque traduziram os termos e conceitos errados. A American Marketing Association (AMA) tem um dicionário e dá 3 definições pra o que, aqui, conhecemos como propaganda e/ou publicidade. Não quero adentrar muito nesse assunto porque vai acabar confundindo vocês, mas se quiserem saber mais, busquem pelos conceitos de Publicy, Advertising e Propaganda. Voltando ao ponto inicial, vou só explicar a diferença entre Publicidade/Propaganda e Marketing.

Na visão de Peter Drucker,

o objetivo do marketing é tornar a venda supérflua. É conhecer e compreender o cliente tão bem que o produto ou serviço sirva e venda por si próprio.

Ou seja, o marketing enxerga o que você quer e te oferece, sendo esse “querer” algo consciente ou não, através de váaaarias estratégias que envolvem o produto, seu preço, seus pontos de venda e sua promoção (os 4P’s, para os mais íntimos). Já a publicidade/propaganda (não vou diferenciar, já disse) são estratégias baseadas em argumentos persuasivos a fim de propagar ideias, produtos e serviços. Ela é só uma das ferramentas utilizadas pelo marketing. Faz parte do P de Promoção. Resumão geral: A publicidade é só uma unha do marketing.

Então, lá se vão 20 “curiosidades” que eu lembrei.

1. A padaria de supermercados fica lá no fundo pra te obrigar a atravessar toda a loja, assim, aumentam as chances de você comprar mais alguma coisa além de pão.

2. Aquele monte de doce enquanto você tá na fila do supermercado também é estratégia pra te fazer comprar mais.

3. Não é por acaso, nem por ordem alfabética que os produtos se posicionam nas gôndolas dos supermercados. Alí são espaços disputados. Os produtos que estão na altura da sua visão estão alí porque suas marcas pagaram mais caro pra aumentar as chances de você levá-las pra casa. Pois é, você enxerga primeiro e tá ao seu alcance mais fácil. A mesma coisa com docinhos que ficam embaixo, se você tiver filhos agora vai saber porque eles te pedem pra comprar tanta coisa. Eles pegam. E criança sabe convencer lindamente.

4. Não é por acaso que o McDonalds é uma combinação de amarelo com vermelho, ou que as clínicas tendem a ter sua comunicação com azul ou verde. As cores têm poderes sobre você. O vermelho e amarelo despertam sua fome. Os tons mais claros remetem à tranquilidade, segurança. O preto remete ao luxo, etc etc etc.

5. Por falar em McDonalds, por que as crianças gostam do McLanche Feliz? ( ) Porque é gostoso? ( ) Porque amam o McDonalds? ( ) Porque sim? Não. Porque ganham presente. A melhor recompensa e maior benefício pra criança é brinquedo. Pra você é ver o filho quieto, então compra.

6. Aquele cheirinho de roupa nova, ou o cheirinho do carro novo, ou o cheirinho característico de alguma loja… Esse cheirinho é uma forma de fazer com que a marca seja lembrada. As pessoas são presas aos sentidos, cada uma tem um sentido mais apurado. Eu, por exemplo, sou muito ligada a cheiros. Perfumes me fazem lembrar de pessoas e momentos, então por que não de marcas?

7. Preços têm um influência muito grande sobre o consumidor. Eu penso que a maioria compra não porque o preço está muito abaixo do seu normal, mas porque não quer ficar com a culpa de não ter comprado algo com o preço tão abaixo do seu normal.

8. Quando Lula fala “meus companheiros” não é pra ser simpático, é pra vender a própria imagem de “homem do povo”.

9. Você não usa All Star porque é confortável ou bonito, usa porque se sente parte de um grupo, porque cria uma identidade.

10. Se a moça do Starbucks faz questão de saber o seu nome e escrever na embalagem do seu café é pra fazer com que você se sinta único e próximo. Geralmente gostamos quando as pessoas lembram da gente.

11. Shoppings são “fechados” pra te fazer esquecer do tempo. Você anda, compra e quando vai ver, já se passaram 4 horas…

12. Os comerciais com humor têm sido frequentes pra chamar a sua atenção e te impedir de mudar de canal.

13. Você não bebe Coca-Cola, você bebe felicidade. A Coca-Cola nunca vende o seu produto, ela vende uma experiência boa em que seu produto está no meio, então você associa coisas boas à ela.

14. O jingle da Coca-Cola te traz uma sensação boa, porque é algo que te acompanhou a vida toda.

15. A Apple não faz propaganda. Tudo que ela lançar, você compra. Se tiver dinheiro. Já tá na mente de todo mundo que qualquer coisa que tenha a maçã, é boa.

16. Quando você procura por algo no Google e depois anúncios relacionados àquilo te perseguem, não é magia negra. O Google tem mecanismos que identificam o que você busca, então traçam estratégias pra te oferecer aquilo. As marcas pagam pra isso.

17. O governo faz campanhas contra o cigarro, mas não os proíbe. Isso porque a indústria do tabaco movimento muuuito dinheiro, bem mais do que o que o governo gasta pra tratar das consequências do vício, então o negócio é friamente lucrativo.

18. Os 99 centavos são chamados de preço psicológico. Ter um zero (R$ 0,99) te dá a impressão que o treco é bem barato. Se fosse R$ 1,10 você já teria outra visão.

20. As grandes marcas (e algumas pequenas também) pensam em tudo pra te proporcionar uma experiência agradável de compra e isso vai desde antes de você comprar até depois que você compra. Você escolhe uma marca porque de alguma forma, antes de você comprar seu produto ou consumir seu serviço ou compartilhar suas ideias, ela mexeu com você, seja com a embalagem, com o preço, com o design, o status, o cheiro, a comodidade, praticidade, inovação, cor, etc etc etc. Então você compra. E no momento da compra outras várias experiências são proporcionadas: Se a página da internet carregou rápido, as formas de pagamento, a ausência de fila, a disponibilidade do produto/serviço, o cheiro, a música do ambiente, o atendimento… E, depois que você compra: Se chegou no prazo, se chegou certo, se houve algum problema e a agilidade pra consertar, se o 0800 te atende e resolve seu problema, etc etc etc. Tudo pra que você fique satisfeito e volte.

Enfim, tem muita coisa nesse meu mundinho. Eu acho divertido. Acredito que, pra muitos, todas essas coisas são bem óbvias, mas pra outro bocado essas coisas passam super despercebidas. São tantas marcas, tantos produtos, tantos serviços, tanta coisa que o que te tratar melhor, te ganha. Quando vir, já tá chamando achocolatado de Nescau, comprando sempre a mesma marca e defendendo-a contra tudo e todos.

Pronto. Agora tu sabe, inocente.

Se tiver mais coisas óbvias nem tão óbvias assim pra listar, posta aí pra todo mundo ficar sabendo. Se acha interessante ou engraçado alguma coisa que alguma marca faz, pergunta aí também pra gente tentar entender o que tá por trás disso. EEE se quiser sugerir algum post, já sabe como fazer também. Se eu souber, eu escrevo sobre. Se eu não souber, vou procurar saber pra escrever sobre.

Me fui!

O Sonho Tcheco

Esses caras são geniais.

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De tudo que já assisti referente à publicidade, acho que esse tá na frente no quesito: tudo. “O Sonho Tcheco” (2004) é um documentário de conclusão de curso de dois malucos estudantes de audiovisual da Academia Cinematográfica de Praga, na República Tcheca: Vít Klusák e Filip Remunda. O projeto: Construir um hipermercado fictício e fazer com que todos acreditassem que ele realmente existia.

Já dá pra tirar por aí o quão interessante o filme deve ser, mas você sempre vai se surpreender ainda mais. O objetivo disso tudo, bem, eles dizem que não têm a resposta, mas esperam que o filme responda todas as dúvidas. E, acreditem, responde.

O documentário foi custeado pelo fundo de incentivo a cultura e envolveu muuuuita gente, começando por cabeleireiros e fotógrafos, afinal, eles precisavam ficar com aparência de empresários e ter fotos como tais.

Para a campanha, a ideia deles é que parecesse algo bem familiar. Mas antes disso, foi preciso criar um logo. O Sonho Tcheco seria como uma bolha que estouraria logo, mas ao mesmo tempo precisaria parecer o logo de um hipermercado. Daí o designer já pensou em duas formas: bolha é como um balão de conversação e esse balão pode ser de dois tipos: de fala ou de pensamento. Eis que surge:

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Bom, partindo pra parte da campanha, eles procuraram uma agência de publicidade (nada mais que Mark/BBDO), e então todas as partes que envolve uma grande campanha são mostradas. Preciso dizer de novo que é muito bom, porque é. A criação envolve pesquisa, fotografia publicitária, jingle, spot, VTs, panfletos, outdoor etc etc etc. Tudo que precisa pra coisa ganhar destaque.

Eu queria falar de tudo que acontece, todos os processos, mas é muita coisa e é bem melhor ver do que ler. De maneira geral, o documentário mostra como a publicidade é capaz de mobilizar a massa.

Mas por que “Sonho Tcheco”?

É uma campanha que não passa de uma mentira, mas que traz à tona uma questão importante e que acabou fazendo com que os tchecos se atentassem ao que estava acontecendo na República Tcheca em 2004: a entrada na União Europeia. Seria então uma propaganda de algo que não existe, mas ao mesmo tempo era a propaganda para reflexão de outra coisa que estava acontecendo: estar junto dos países mais ricos seria mesmo um sonho para a população desses países mais pobres? Isso foi representado através da implantação do hipermercado, que até o início de 2000 era algo restrito ao bloco ocidental do continente europeu.

Todos que participaram do projeto conseguiram vender um sonho. Além de produzirem um ótimo material de estudo para estudantes de Publicidade. Se foi bom ou não pra população tcheca vivenciar essa mentira, eu não sei, mas, seguramente, foi algo importante para todos eles.

Eu gosto muito de trabalhar com publicidade. Sempre que saio do trabalho pra encontrar com os amigos no bar, honestamente, penso que sou eu quem move o mundo. Como no material que estamos trabalhando, se funcionar, nós vamos decidir o que mil pessoas vão fazer em 31 de maio, às 10 da manhã. Isso é muito legal.”